domingo, 25 de dezembro de 2011

Queijos

Quando o Natal não parece Natal, e conversas sobre queijo se torna algo extremamente cafona e bonito, pequenas verdades se tornam maravilhosas lembranças.
Eu estou em Sumaré, porém esse ano, o Natal passou tão desfocado, que hoje nem parece ser mesmo Natal. Saímos ontem do hotel por volta das três da tarde, sendo uma viagem quieta por todos estarem cansados de mais, e, de certa forma, todos estavam machucados. Ariane acabou queimada pelo sol, a Cláudia caiu da boia que o Jet Ski puxava de pescoço na água, e ainda está com muita dor nas costas, e eu, não só por destrocar o dia e a noite (o que acaba muito com o corpo) mas também o fato de eu ter tomado um tombo no mar e ter machucado meu joelho direito. Enfim, os três estavam quebrados, mas, embora isso, nenhum de nós mostrou arrependimento de nada. Pelo contrário, valeu a pena, não só o desgaste físico, mas também cada centavo que gastamos nessa viagem.
Quase seis horas da tarde chegamos em Sumaré, e ao descarregarmos as malas, a primeira coisa que eu disse foi: "Eu já volto, vou ver a Aninha". Meia hora depois eu estava em seu sofá, esperando-a sair do banho. Ela saiu cantando, e, ao olhar para o lado, ainda de toalhas, se assustou: "Amor?! O que você faz aqui?", respondi apenas com um sorriso.
Conversamos por uma hora, mas como era véspera de Natal, ela tinha que se arrumar. Parti de lá direto para a casa da Lígia. Ela também estava se arrumando para a ceia. Parecia que só eu estava fora da sintonia natalina.
Foi bom vê-la de novo. A Rah estava em Belo Horizonte passando o Natal na casa da mãe. Não posso negar que conversar com a Lígia sem a Rah torna a conversa melhor, afinal eu não sou muito íntimo da Rah, por mais que eu goste dela, a amiga que eu vou visitar é a Lígia (por mais que isso saia com um tom estranho). Sem a Rah, é como se tivéssemos voltado aos tempos de escola. Foi como uma lembrança viva, ela se maquiando enquanto a gente conversa, eu, encostado na porta do banheiro, como seu fazia todo dia antes de irmos para a escola.
Acabei jantando na casa dos avós da Cláudia, e antes das onze da noite eu e ela estávamos jogados no colchão, desmaiados. Acordei por volta das nove da manhã. Já é o segundo Natal que passo longe dos meus pais.
E no dia anterior, por essas horas, eu estava tomando café da manhã no hotel. A praia realmente mexe com a gente, mexe com o corpo e mexe com as nossas emoções. Parece que tudo fica mais "para sempre" do que de costume. As conversas ficam mais verdadeiras, mais íntimas, mais delicadas, e mais (com certeza) legais por acontecerem no mar, com as ondas acertando-nos, parecendo que estava levando as coisas ruins para longe.
Deitados na cama, no quarto do hotel, com as músicas do Pink Floyd de fundo, Ariane e eu conversávamos, enquanto esperávamos a Cláudia trazer a comida. Deitados juntos, ela tinha a mão em meu peito. Em um sussurro, perguntei: "O que vamos ser nessa vida?", sua resposta foi a mais cômica possível: "Eu quero ser uma salsicha".
Dei risada, e respondi: "Prefiro ser um queijo". "Por quê?", perguntou ela.
"Porque queijos têm um campo maior de possibilidades. Ele vai com doce, vai com salgado". "Que ambicioso você", respondeu Ariane.
"Mas acho que eu seria um queijo Mozzarella. Bem básico".
"Não acho. Mozzarella é muito comum". E propus: "Talvez um queijo Minas então". "Não", respondeu ela, "Acho que você tem que ser aqueles queijos que são servidos com vinho".
"Cheddar", brinquei. "Já sei. Queijo Meia Cura". Eu não conheço esse tipo de queijo, talvez eu já tenha até experimentado, mas o nome não me liga a nada.
Esse foi um ano diferente, onde queijos se tornaram mais interessantes que o próprio Natal, em questão de assunto. De certa forma, estou preocupado pelo Natal ter sido tão diferente para mim. Normalmente adoro essa época do ano, enfeitar a casa, mas nem árvore de Natal esse ano eu montei. Ele passou tão despercebido, que ainda sim, mesmo sendo Natal, não parece.
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