terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Câmara Fria

Estarei arriscando de mais. Estarei me colocando na frente da dor, estarei causando a minha própria angústia, acessando as coisas quero esquecer. Eu posso continuar a não pensar, e ficar preso dentro do meu quarto, e preso dentro da minha prisão. A qualquer alerta de que eu me lembrarei dele, eu simplesmente me forçarei a pensar em outra coisa. Poderia ser assim, mas por eu ser quem sou, e ter que viver o máximo dos sentimentos, sejam eles bons ou ruins, eu sei que a hora de escrever sobre isso está chegando, por mais que eu continue a escrever palavras fugindo do assunto principal, ele vai chegar. Ele sempre chega. Fugir e continuar dia após dia até que você esteja blindado a isso pode ser fácil, mas não é o melhor caminho. Também não sei qual o melhor caminho, se é esse, do qual estou há alguns dias, ou se aquele que tenho fugido, que me causa arrepios, dispara por instantes o meu coração, e me lembra o quanto as pessoas podem ser má, que me lembra o quanto a gente se engana, e principalmente, que me lembra que nem sempre as coisas serão da maneira que a gente deseja.
Amanda me disse uma vez: "Eu sei. A gente tem esperança de que um dia a pessoa vai perceber, e que tudo vai melhorar. Eu sei disso, porque eu também tenho esperança, por mais que tudo fique ruim, um detalhe pequeno, é o suficiente para ignorar a escuridão e focar nisso com esperança de que as coisas vão voltar, ou vão melhorar. Mas Gui, não vão. Ter esperança, por mais cruel que possa parecer, não é a melhor saída. Você vai continuar se machucando atoa. A cada vez que você perceber que você estava, que você se enganou de novo, e tudo continua ruim da forma que estava, você vai sofrer cada vez mais". As minhas lágrimas do outro lado da ligação diziam que tudo que ela me dizia era verdade. Depois que eu vi que e o Mauri estávamos trabalhando "juntos" para o bem da Thamires, eu voltei a ter esperança, e todo aquele muro que eu construi desde que eu fui para Sumaré, havia sido derrubado, seja pela esperança de que voltaríamos a ser amigos, ou seja por eu sentir isso por ele. Mas aconteceu. Eu me deixei levar pelo que parecia ser um grande recomeço bom, onde voltaríamos a ser amigos.
Na noite seguinte àquela que tudo parecia melhor, eu estava indo trabalhar, e encontrei o Mauri a caminho da fábrica. Não sei o motivo disso, tentei encontrar desculpas para o que eu fiz, mas nenhuma coube nessa situação. Eu disse para ele que eu estava precisando de ajuda, pois o ENEM estava perto e eu ainda nem tinha estudado. Ele ficou sem jeito, eu fiquei sem jeito, mas ele disse que iria me ajudar. "Marcamos" na sexta-feira. E eu fiquei feliz, talvez porque essa fosse a chance de nos aproximarmos novamente. Não era.
Meia-noite, e pediram para que eu, o Mauri, e outro cara fossemos limpar a câmara fria, que já estava abandonada há anos. Eu não quis ir, mas era serviço, e não nego serviço. Foi simplesmente a pior sensação que eu já voltei a sentir. O outro cara que também foi chamado comigo e com o Mauri era um idiota, que não ficava quieto um minuto, ordenava eu e o Mauri fazermos as coisas. Mauri ficou quieto no começo. Depois foi totalmente passivo com as ordens do idiota. Ao ver Mauri fazendo isso, fiquei sem reação, e resolvi limpar logo aquele lugar fechado, para acabar logo com isso. Mas não foi a pior coisa ficar em silêncio enquanto o idiota mostrava para mim como ele e o Mauri eram parceiros (ele fazia isso), ou mostrava como ele era forte, enfim, ele começou a fazer brincadeiras pelas minhas costas.
Quando eu tinha meus trezes, quatorze anos, antes de conhecer a Aninha, eu sofria bastante com isso. Idiotas fazendo brincadeiras pelas minhas costas, pelo meu jeito diferente, pela minha homossexualidade. Aquilo sempre me fez mal, mas depois que eu conheci a Aninha, e ele me defendia dessas pessoas, eu não sofri mais com isso, e aos poucos eu parei de me importar, e as "brincadeiras" pararam em seguida. Então, por ter vivido muito isso, eu sei quando alguém está "brincando" pelas minhas costas. E isso não teria me afetado, se não fosse a reação do Mauri. Ele podia ficar neutro, não queria que ele me defendesse, era o suficiente ele ficar neutro. Mas foi como um soco no meio do estômago. Ele riu, entrou no "jogo" daquele idiota, para mostrar sei lá o quê.
Senti-me com quatorze anos novamente. Eu estava sozinho, não tinha com quem conversar, não tinha como fugir, e ouvindo aquilo por mais de uma hora e meia. Ele me atingiu. As palavras maldosas e as risadas escondidas do Mauri me atingiram. Tentei não mostrar isso, mas logo, pela sensibilidade que eu estava aquele dia, eu comecei a ter a insuportável vontade de chorar. E saí, sem dizer nada. Não vi se o Mauri tinha me visto chorar, apenas saí. Fui para o banheiro e chorei. Quando saí do banheiro, ainda com os olhos vermelhos, encontrei a Thamires e a mãe dela, e elas falaram para eu ir jantar com elas, e deixá-los de lado.
Eu não tive vontade de me defender. Eu só deixei aquilo me atingir com a maior força que podia. Naquela, e no dia seguinte, chorei por várias vezes. Os motivos?! Eu não ter me defendido, como aquele idiota tinha me atingido, de certa forma, também me senti traído pelo Mauri, afinal, mesmo não sendo mais meu amigo, jamais esperaria isso dele, e o mesmo motivo de sempre: a falta que a Aninha que faz nessas horas.
Eu não queria ligar para ela, não podia deixá-la mal por uma coisa minha. Isso seria tão egoísta, e só em pensar nela ruim por minha culpa, fazia-me engolir qualquer vontade de pegar o meu celular e ligar para ela. Minha mãe tinha ido para Unicamp, para seu tratamento, como ela faz a cada um mês e meio, e então seria bem mais fácil ficar trancado no quarto. Passei dias sem fazer nada, apenas chegava do serviço, me trancava no quarto, quando alguém me avisava que o almoço estava pronto na casa da minha Avó, eu saía, ia comer, e voltava para dentro do quarto.
Na sexta-feira, eu iria estudar com o Mauri, mesmo estando mal, fiz essa última idiotice. Liguei para ele, e ele não atendeu. Acabei dormindo fora de hora, e perdi hora. Meu pai me deu carona, e ao me ver saindo do carro, Mauri desligou o celular correndo, e começou a andar rápido para entrar na fábrica. Quando saí do vestiário, uma mulher tinha parado o Mauri para conversar, coloquei a mão no ombro dele, e apenas disse: "É melhor você correr, Mauri. É bem mais fácil". E o deixei.
Não tive mais vontade de escrever, nem pensar nisso. Depois da sexta-feira, tranquei isso dentro de mim, assistindo muitos filmes e fazendo qualquer coisa para não pensar, pois qualquer coisa me puxaria de volta a pensar nele. Eu não me defendi, eu não me protegi, e eu não vou pensar mais.
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